Derrubada do IOF expõe prioridades do Congresso e desgaste entre Câmara e Planalto

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A decisão do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), de levar de surpresa à votação o projeto que susta o aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), imposto que teria como objetivo ampliar recursos para programas sociais, expôs um dos momentos mais tensos entre o Legislativo e o Palácio do Planalto desde o início do terceiro mandato de Lula. A medida, articulada nos bastidores e anunciada publicamente apenas às 23h35 da noite anterior à votação, representa não só uma derrota do governo, mas também um sinal claro das prioridades que dominam o Congresso atual.

O impacto fiscal da decisão é de pelo menos R$ 10 bilhões a menos na arrecadação federal, segundo cálculos do Ministério da Fazenda. Essa perda de receita compromete diretamente o financiamento de políticas públicas voltadas às camadas mais pobres da população, como programas de transferência de renda, combate à fome e ações emergenciais em saúde e habitação.

Mesmo após a votação, Motta afirmou a interlocutores que pretende ligar para o presidente Lula em um gesto de distensão. O gesto, no entanto, soa mais como tentativa de controle de danos do que como reconciliação genuína. Durante todo o dia anterior à votação, o deputado evitou contato com os ministros Fernando Haddad (Fazenda) e Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais), ambos diretamente envolvidos nas negociações. O silêncio foi interpretado por membros do governo como um sinal calculado de afastamento.

Centrão em movimento

Nos bastidores, a movimentação de Hugo Motta é lida como um recado: o Centrão continua sendo o fiador das decisões mais sensíveis da Câmara e não aceitará ser apenas coadjuvante nas escolhas estratégicas do Executivo. Apesar de negar rompimento com o governo, Motta listou “incômodos” com a condução política do Planalto. O episódio confirma a instabilidade da base governista e a crescente autonomia do Legislativo, mesmo em pautas com forte impacto social.

Analistas políticos destacam que a derrota no caso do IOF reflete um Congresso mais atento às pressões do mercado e menos comprometido com as agendas sociais. A medida foi comemorada por setores empresariais e do sistema financeiro, que se opunham ao aumento da alíquota, mas criticada por economistas e organizações sociais, que alertam para o enfraquecimento das políticas públicas.

Quem perde com isso

A arrecadação proveniente do aumento do IOF seria canalizada para financiar programas como o Minha Casa, Minha Vida, o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o Bolsa Família, que dependem de constante ampliação orçamentária para alcançar mais famílias em situação de vulnerabilidade. Sem esse reforço, a continuidade de várias dessas ações pode ser comprometida, sobretudo em regiões mais pobres do país.

A tentativa de minimizar o desgaste por meio de um telefonema tardio ao presidente soa, para muitos, como um gesto simbólico vazio diante da contundência da votação. A crise entre Executivo e Legislativo está posta, e o episódio do IOF deixa claro: o apetite por protagonismo político no Congresso, somado ao enfraquecimento das pautas sociais, será um dos principais desafios para o governo Lula nos próximos meses.

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